O que é Dislexia?

Dislexia é o termo que descreve a dificuldade inesperada e persistente que o aluno apresenta no início de seu processo de alfabetização, em dominar os mecanismos do aprendizado da leitura e escrita. A dislexia varia em graus de severidade e é persistente e superada somente quando o aluno é ensinado através de uma abordagem de ensino científico e personalizado.

Podem estar associadas à dislexia outras disfunções envolvidas como, por exemplo, o aprendizado da matemática e da escrita. Ainda que já tenha recebido mais de 100 diferentes denominações, dislexia é a palavra que melhor define essa disfunção. A palavra dislexia é composta pelo prefixo grego dys (δυς – dificuldade, enfraquecimento) e o radical grego lexic (λέξϛ – léxico, palavra, vocabulário, dicção, formação das palavras). A definição de Dislexia vem sendo aperfeiçoando a medida em que a pesquisa científica evolui. O National Institute of Child HealthHuman Development (NICHD) e o Conselho Administrativo da International Dyslexia Association (IDA) adotam, desde 2002, a seguinte definição de dislexia:

“Dislexia é um distúrbio específico de aprendizagem de origem constitucional. É caracterizada por dificuldades no reconhecimento preciso e/ou fluente de palavras isoladas, refletindo dificuldade no processamento e manipulação da estrutura sonora das palavras (processamento fonológico). Essas dificuldades em decodificar palavras isoladas são frequentemente inesperadas em relação à idade e a outras habilidades cognitivas e acadêmicas, e não são resultantes de um transtorno geral do desenvolvimento ou de problemas sensoriais.

Dislexia existe – Dislexia não é o resultado de falta de motivação, déficit sensorial, oportunidades educacionais ou ambientais inadequadas ou outras condições limitantes, mas pode ocorrer simultaneamente com estas condições. A dislexia é comprovada através de estudos anatômicos de imagens cerebrais, que evidenciam diferenças na forma como o cérebro de indivíduos disléxicos se desenvolvem e funcionam. Os cerebros disléxicos conectam-se de modo diferenciado e, por isto, funcionam de maneira diversificada.

Dislexia não é doença, – é uma condição genética ou neurodiversidade. Do mesmo modo que os pais transmitem aos filhos características genéticas como olhos azuis e cabelos ruivos pouco frequentes, eles também transmitem uma arquitetura cerebral pouco frequente que determina uma atividade cerebral peculiar pelo modo como as áreas cerebrais se conectam e trocam informações, trazendo como consequência habilidades próprias e a disfunção no âmbito de leitura e escrita.

Dislexia não é rara. Estimativas relativas a estudos norte-americanos indicam que 15% a 20% da população apresenta um distúrbio de aprendizado na área da linguagem, sendo a dislexia a causa mais comum de disfunções nas áreas de leitura e escrita, enquanto que estudos brasileiros apontam para um índice de 7 a 10% de incidência. Através da realização de futuras pesquisas comparativas entre o perfis de aprendizado de estudantes disléxicos em relação a complexidade linguística de cada idioma pesquisado, sendo ele transparente ou não, poderemos entender melhor o que significa esta diferença na incidência da dislexia em diferentes países.

Correlação existente entre QI e dislexia – Resultados de estudos longitudinais realizados pela Dra. Sally Shaywitz, mostram que, em leitores típicos, a habilidade de leitura e o QI caminham juntos e estão dinamicamente ligados através do tempo. Mas, no caso dos alunos disléxicos, esta correlação direta não existe. Então, um disléxico altamente inteligente pode obter índices altíssimos nos testes de QI e apresentar um nível de leitura muito rebaixado. Hoje, a Ciência Cognitiva da Leitura sinaliza importantes conclusões que trazem um entendimento mais apurado sobre a correlação entre QI, habilidade de leitura e o perfil cognitivo dos disléxicos. Dislexia não é um problema de ordem visual – “A maioria dos especialistas acredita que a dislexia é uma desordem na área da linguagem. Os problemas de visão podem interferir com o processo de aprendizagem, porém problemas de visão não são a causa básica da dislexia ou de dificuldades de aprendizagem. As evidências científicas não apoiam a eficácia dos exercícios para os olhos, a terapia visual ou a utilização de filtros ou lentes coloridas para melhorar o desempenho educacional de longo prazo, nessas condições neurocognitivas pediátricas complexas.

Diagnósticos e abordagens de tratamento não confirmadas pela evidência científica, incluindo exercícios para os olhos, terapia visual ou utilização de filtros ou lentes coloridas não são endossados e não devem ser recomendados.” Pediatrics 009;124:837–844. (Official Journal of the American Academy of Pediatrics) (www.pediatrics.org).

Quando uma pessoa é identificada como disléxica, ela precisa receber um diagnóstico detalhado, condição básica para a composição de um programa individualizado de ensino, para que ela possa ser assistida através de uma intervenção neuropsicológica adequada e intensiva.

Meninos e meninas apresentam índices aproximados em dislexia. Estudos internacionais mostram que o número de meninos e meninas diagnosticados como disléxicos se equipara, inclusive indivíduos das diferentes origens étnicas e socioeconômicas. (International Dyslexia Association). Normalmente, um número maior de meninos é identificado como disléxico, porém, quando todas as crianças de uma escola são testadas por profissionais altamente treinados, o número de meninas e meninos disléxicos se equipara. Resultados similares são obtidos em estudos de famílias nas quais todos os seus membros são avaliados, por exemplo, quando uma criança dessa família tenha sido identificada como disléxica ou quando toda a família participa de estudos científicos.

A dislexia não se caracteriza como um atraso no desenvolvimento de leitura que possa ser superado com o passar do tempo. O aluno disléxico somente consegue aprendera a ler apropriadamente, se ele for submetido à intervenção neuropsicológica adequada em qualidade, intensidade e frequência, baseada em conceitos científicos validados pela pesquisa científica ou Ciência Cognitiva da Leitura.

A reprovação escolar não é uma estratégia educacional válida e não deve ser utilizada como instrumento para tentar resolver o problema da dislexia – A simples reprovação escolar faz com que o aluno receba a mesma instrução ineficiente pela segunda vez e, mais uma vez não aprende, porque ele precisa de outra forma de instrução. A reprovação escolar é um indicador poderoso de abandono escolar e alunos de sexta série que foram reprovados consideraram a reprovação escolar como sendo o evento mais deprimente de suas vidas, ainda mais estressante do que perder um de seus pais ou de ficar cego.

Durante a década de 1990, a análise de 19 estudos do desempenho escolar e de ajustamento social e emocional de dois grupos de alunos, sendo os alunos reprovados comparados com um segundo grupo de alunos com baixo rendimento escolar, mas promovidos, indicou a produção de efeitos negativos significantes da repetência em todas as áreas de realização e de impacto social emocional nos alunos reprovados. (Jimerson, 2001) Meta-analyse of grade retention research: Implications for practice in the 21st century. School Psychology Review, 30, 313–330.

Disléxicos podem aprender a ler – Se expostos a uma avaliação e abordagem de ensino adequadas, disléxicos podem aprender a ler e escrever. Esta instrução deve ser personalizada, pois a dislexia varia em intensidade e consequente ritmo de aprendizado. O disléxico em nível grave deve receber um atendimento mais intenso, enquanto o disléxico que apresente sintomas mais leves poderá receber uma assistência menos intensa, seja no ambiente escolar ou doméstico. É fundamental que seja usada metodologia adequada, onde sejam ensinados, inicialmente, os elementos básicos da linguagem como os sons que compõem nossa língua e como esses sons devem ser representados pelas letras de nosso alfabeto, operando dentro dos limites da memória operacional dos alunos. Este método deve ser multissensorial, utilizando-se dos procedimentos adequados a cada etapa.

Devem ser utilizadas as técnicas do diagnóstico prescritivo, que controla as respostas dos alunos e, a partir delas, organizar os materiais adequados para as sessões futuras, de forma sequencial. A instrução deve ser ministrada de modo direto, dentro dos princípios do ensino fônico estruturado, sistemático e cumulativo, onde deve ser desenvolvida a competência linguística dos alunos. Não existe melhor terapia para a Dislexia do que o sucesso, que começa com as pequenas conquistas do aluno, graças a um sistema de ensino científico explícito – como descrito acima, onde seja dinamizada uma relação estreita com o aluno, que permita seja iniciado um processo de construção da autoconfiança do aluno em vencer seus obstáculos.

Finalmente, o apoio psicológico é altamente recomendável, porque habilita o aluno disléxico a entender seus mecanismos individualizados de aprendizado e a estimular os caminhos de sua própria meta-cognição. Crianças disléxicas assistidas com abordagem correta no início da alfabetização, obtém grande sucesso – disléxicos que obtém grande sucesso no aprendizado da leitura, são aqueles alunos cuja alfabetização é realizada através da abordagem adequada de ensino, já no início de sua alfabetização, estimulando-os no período sensível em que o cérebro é especialmente maleável.

“A identificação precoce é importante, porque o cérebro da criança, por volta dos 6 anos de idade, é muito mais plástico e potencialmente mais maleável para o redirecionamento dos circuitos neurais”.(S.Shaywitz, 2003) O estudante disléxico consegue ganhos consistentes na leitura e escrita com o tipo de instrução adequada, em qualquer período de sua vida – Nunca é tarde para iniciar o processo de reeducação da linguagem. Normalmente, estudantes adultos melhoram muito suas habilidades de leitura, que reforça sua autoestima, quando eles recebem o tipo de instrução da qual necessitam.

Enquanto a remediação precoce evita o fracasso no aprendizado e as consequências psicológicas negativas que desencadeiam, ótimos resultados também são observados com o trabalho de tutoria realizado com disléxicos adolescentes ou adultos. Existe uma conexão direta entre ansiedade, depressão e dislexia – “As consequências psicológicas, sociais e econômicas do fracasso no aprendizado da leitura são inúmeras. É por esta razão que o Instituto Nacional de Saúde da Criança e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos, considera que esse fracasso não reflete somente um problema educacional, mas um problema de saúde pública” (Literacy: Why Children Cant Read, 1997, p.2). O estresse crônico que as crianças disléxicas sofrem devido ao fracasso escolar causado pela falta de adequação no atendimento de suas necessidades individuais e valorização de suas habilidades, desencadeia um rebaixamento em funções como memória operacional, atenção e concentração, comprometendo ainda mais seu aprendizado.

A pesquisa indica que ”20% das crianças disléxicas sofrem de depressão e outros 20% de ansiedade. Quando a criança disléxica desenvolve tal comorbidade, esses sintomas tornam-se mais graves e ela passa a apresentar mais dificuldades para vencer seus obstáculos.” ((Willcutt,Gaffney-Brown 2004).

Pontos fortes e fracos do perfil cognitivo do disléxico – As variações presentes na arquitetura cerebral dos disléxicos traz, como consequência, uma dificuldade pronunciada no aprendizado da leitura e escrita. Porém traz, também, maior habilidade em outras funções cognitivas. Fato que foi sempre observado por pais, professores e terapeutas e, hoje, é objeto de pesquisas. Há sete anos, foi criado o Laboratório para o Aprendizado Visual do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, que está examinando as vantagens da dislexia nos ramos da ciência, nas quais se usa muito a visão.

O Diretor do Laboratório, Dr. Mattew Schnep, em artigo publicado em 2011 no Bulletin of the American Astronomical Society, indica que a dislexia pode ser uma vantagem para os pesquisadores de seu setor, que devem dar sentido a uma enorme quantidade de dados visuais. Num experimento, os astrônomos disléxicos, examinando o gráfico das ondas-rádio provenientes do espaço externo, ou componentes espaciais de baixa frequência, superaram seus colegas na identificação dos esquemas que indicam a presença de buracos negros.

Num outro experimento, a psicóloga Catya von Károlyi , descobriu que disléxicos levam 2.26 segundos para definir como possível ou impossível imagens do Teste de Escher, enquanto os leitores típicos precisam de um terço do tempo a mais para a mesma tarefa. Além de habilidades mecânicas e raciocínio espacial tridimensional, acredito que a criatividade seja a maior habilidade dos disléxicos pois, através dela, eles conseguem desenvolver soluções para problemas que pessoas pouco criativas não conseguem resolver. Infelizmente, nosso sistema educacional não está consciente das habilidades disléxicas, que o leve a considerar os refinados talentos destes estudantes.

É necessário que as escolas brasileiras sejam transformadas em locais acolhedores, que realmente eduquem e façam com que os alunos se sintam entendidos e respeitados em suas diferenças – ou diversidades neuropsicológicas. O que começa a acontecer através do mundo, porque o universo da Educação vive um momento histórico e sem precedentes, com a evidência científica demonstrando que Dislexia não é doença nem incapacidade; que Dislexia é um jeito de ser e de aprender.

Neste significativo avanço das neurociências estão implícitos testemunhos pessoais de um número cada vez maior de disléxicos inteligentes e bem sucedidos, que sugerem uma quebra de paradigma no conceito e na definição de Dislexia. A descrição de um desses disléxicos famosos constitui-se num atestado vivo desta sugestão. “Acredito que a evidência científica e a observação da sociedade continuarão a testemunhar que definir a dislexia com base somente em suas dificuldades é incorreto e injusto e coloca uma sobrecarga cruel em pessoas jovens que recebem esse diagnóstico.

Uma definição mais precisa de dislexia poderá identificar claramente as dificuldades que lhe estão relacionadas, ao mesmo tempo em que reconhecerá também as habilidades associadas. Se a comunidade disléxica for capaz de popularizar tal definição, disléxicos que venham a ser diagnosticados poderão ficar conscientes de que eles, como qualquer outra pessoa, poderão olhar o futuro com uma compreensão maior de suas capacidades e dificuldades.” (Dr. Blake Charlton, disléxico, médico e escritor, em artigo publicado na revista New York Times de 22 de maio de 2013, sob o título: Defining My Dislexia – Definindo minha Dislexia).

Monica Luczynski Psicóloga – CRP 08/04079
Co-autora do Método Panlexia no idioma português brasileiro. Autora da atualizada Abordagem de Ensino Sons das Letras, para ensinar disléxicos brasileiros a ler e escrever de forma precisa e fluente

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