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A VIOLÊNCIA CONTRA OS PAIS

Crianças e adolescentes que agridem seus pais

 

Por Dr.  Mário Louzã Neto – Psiquiatra

 

O comportamento agressivo de crianças (“child-to-parent”) ou adolescentes (“adolescent-to-parent”) direcionadas aos pais vem se tornando um importante tema no contexto da violência doméstica. Entende-se aqui comportamento agressivo ou violento como qualquer tipo de expressão verbal ou física que ameaça os pais ou visa o controle de sua autoridade parental. O objetivo final (intencional ou não) é inverter a regra usual segundo a qual os filhos obedecem aos pais.

Não se tratará aqui de comportamentos agressivos em portadores de transtornos mentais graves (espectro do autismo, esquizofrenia, retardo mental etc.), uma vez que estes muitas vezes fazem parte dos sintomas destes transtornos.

Também não é o caso de chamar toda criança ou adolescente com comportamento agressivo de portador de “transtorno de oposição e desafio”, pois esta é uma saída ‘fácil’, reducionista e não contribui para aprofundar a compreensão do problema.

O comportamento agressivo é inerente ao ser humano, uma característica da espécie, relacionada em parte à própria sobrevivência, em parte ao comportamento que visa hierarquizar os membros do grupo. A criança nasce potencialmente capaz desse comportamento; à medida que cresce seu desenvolvimento neuropsicomotor gradualmente permite que expresse tal comportamento. A criança nasce sem noção de limites, tão logo começa a engatinhar e dar os primeiros passos avança na exploração do meio-ambiente, na tentativa de compreendê-lo e dominá-lo. A partir desse momento precisa que os pais (e adultos em geral) exerçam o papel de lhes colocar limites, uma vez que a exploração do meio-ambiente a coloca potencialmente em situações de risco.

É função dos pais colocar limites na criança, seja porque ela está em situação de risco físico real, seja porque ela precisa aprender os limites e as regras do comportamento do grupo social para que possa conviver em sociedade. A criança precisa (e às vezes até “quer”) que lhe sejam colocados limites. Por si só ela não adquire limites, a não ser a um custo muito alto, em geral se machucando, literalmente. Muitas vezes testa os limites e é desta forma que aprende o que é e o que não é permitido. Esse aprendizado precisa começar logo cedo (nos primeiros meses de vida); o estabelecimento de regras e limites claros facilita a vida da criança, pois esta não tem maturidade para julgar por si mesma o que deve e o que não deve fazer. Sua tendência natural é desrespeitar limites e precisa desse aprendizado para respeitar as regras que permitem o convívio social.

A medida que cresce ela incorpora tais regras, aprende gradualmente a tolerar frustrações e aos poucos vai respeitando os limites por si mesma, desenvolvendo sua capacidade de autocontrole, sem que os adultos precisem o tempo todo lhes colocar limites. A criança muito aprende também com o comportamento dos pais, seus primeiros modelos, que procura imitar espontaneamente.

Existem ainda relativamente poucos estudos sobre os fatores que levam ao comportamento agressivo das crianças em relação aos pais. No entanto, parece haver um certo consenso de que a violência doméstica, seja entre os pais, seja dos pais para com os filhos, é um fator importante para a conduta agressiva do filho em relação aos pais. Inversamente, pais excessivamente indulgentes e permissivos, com dificuldade para colocar limites nos filhos favorecem reações agressivas destes em relação aos pais. Um fator cultural recente é a mudança de um padrão assimétrico da relação pais-filhos, estando os pais numa posição de autoridade hierarquicamente superior aos filhos, para um padrão mais simétrico, no qual pais e filhos estão no mesmo patamar hierárquico aumentam as chances de reações agressivas dos filhos para os pais. No caso de adolescentes que agridem os pais, o uso de drogas e depressão parecem ser fatores relevantes. A exposição à violência nas diversas mídias eletrônicas (TV, filmes, videogames etc.) aumenta o risco de atitudes agressivas e cria uma indiferença à violência.

Então, o que fazer? Seria possível prevenir ou evitar que os filhos se tornem agressores dos pais? Embora não haja uma garantia de sucesso, algumas regras mínimas podem ajudar a reduzir o risco dessa situação.

  1. O primeiro passo é a conscientização dos pais de que é sua responsabilidade educar os filhos. A educação se dá pelas orientações e explicações dadas aos filhos e também pelo próprio modo como os pais se comportam. Os pais são os primeiros modelos que os filhos observam e procuram se espelhar.
  2. Devem também se conscientizar de que há uma hierarquia na relação pais-filhos, sendo que os pais estão num patamar superior em relação aos filhos.
  3. Não há como educar sem por limites. E a colocação de limites começa cedo, tão logo a criança começa a explorar o ambiente.
  4. Os limites devem ser tão claros quanto possível, de modo a não deixar dúvidas para a criança. Ela tentará ultrapassar o limite, mas saberá direitinho qual é o limite e saberá que está testando os pais quanto à colocação do limite.
  5. Não adianta querer poupar a criança da colocação de limites. Se os pais não fizerem isso, a vida real (o mundo “lá fora”) o fará, de forma em geral muito mais dura e sem piedade.
  6. Pais devem estar de acordo quanto ao limite, se um diz “não” e o outro diz “sim”, a criança aproveita a brecha e “deita e rola”. A incoerência entre os pais (um diz ‘sim’ o outro diz ‘não’) é frequente quando estes são separados, uma vez que muitas vezes a criança é usada para provocar o ex-cônjuge.
  7. Os limites podem variar gradualmente conforme a idade da criança; da mesma forma as recompensas e as punições se o limite é cumprido ou não. Os elogios quando a regra é cumprida e as repreensões quando não é cumprida fazem parte desse processo.
  8. É importante conversar com a criança sobre suas reações à frustração, para que ela aprenda a expressá-las de modo verbal e não fisicamente.
  9. Se a situação começa a sair do controle, procure logo ajuda psiquiátrica ou psicológica. Não espere, pois quanto mais tarde é a intervenção terapêutica, mais difícil conseguir um bom resultado.

E como fazer quando a situação já está estabelecida? Como lidar com as crianças ou adolescentes que agridem os pais? Embora seja mais difícil aplicá-las, as regras acima citadas podem ajudar. No entanto, numa situação de agressão já estabelecida, será necessário também buscar ajuda especializada para uma avaliação detalhada da criança/adolescente e da família nuclear. Em geral já se estabeleceu uma certa dinâmica de interação patológica entre os membros da família o que sugere a necessidade de intervenções não apenas para tratar a criança/adolescente agressivo, mas para trabalhar e modificar a dinâmica familiar.

 

 

Leituras complementares

http://www.eddiegallagher.com.au/violence%20to%20parents.html

https://www.empoweringparents.com/article/when-kids-get-violent-theres-no-excuse-for-abuse/

http://www.rcpv.eu/

https://www.basw.co.uk/resource/?id=3858

http://www.reducingtherisk.org.uk/cms/content/child-parent-violence

https://www.brighton.ac.uk/about-us/news-and-events/news/2015/01-27_the-hidden-abuse-by-children-on-parents.aspx

[1] Médico psiquiatra e psicanalista. Doutor em Medicina pela Universidade de Würzburg, Alemanha. Consultor científico da Inspirare. www.saudemental.net

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